Psicologia

Luto e dor

A morte é a única certeza que temos garantida na vida. No entanto, quando nos atinge, ela pode nos atingir como se estivéssemos sendo engolidos por uma avalanche, imaginando se algum dia voltaremos a respirar. O mundo como nós conhecíamos parece deixar de existir, e o desmoronando interno pode ser absolutamente paralisante.

Eu só posso escrever nesse momento porque eu estive lá e quero compartilhar com vocês algumas coisas que foram incrivelmente úteis para mim durante todo esse processo de superação.

MORTE

Meu irmão mais velho faleceu há cinco anos. A notícia me atingiu de uma forma indescritível. Ele foi, e ainda é, um dos meus ídolos, guerreiro, um irmão maravilhoso, um herói para mim.

Eu não escrevi sobre isso por um longo tempo porque, com toda a honestidade… Eu estava furiosa, oprimida pela tristeza, perdida, preocupada com os meus pais, solitária, louca porque eu não iria vê-lo novamente, aliviada, em alguns momentos me sentia bem, então ficava zangada e triste novamente. Esta montanha-russa de emoções continuaram por um longo tempo. Muitas vezes eu ficava confusa. Eu queria desesperadamente ‘descobrir’ e compreender um grande significado para aquilo tudo para que, de alguma forma, eu pudesse experimentar a paz e o amor em meu coração mais uma vez.

Foi a época em que eu mais me senti só, apesar de a família ter se unido, a dor era tão grande que todos permaneciam calados, falar do meu irmão virou um tabu, e eu me sentia responsável em confortar cada um, ter a palavra certa, o abraço apertado, tudo que pudesse trazer um pouco de conforto a todos, com a perda do meu irmão veio o fim do meu casamento. Imaginem agora a confusão que meus pensamentos se tornaram… me separei no mesmo ano em que meu irmão morreu, recém formada, tive que ir a luta, aprender a trabalhar, a superar perdas e “limitações” que nós teimamos em alimentar. Com todo sofrimento, olho para trás e fico feliz com a mulher que vejo hoje, fico feliz em ter me espelhado no meu irmão, no guerreiro e no homem família que ele sempre fora.
Ele ter morrido me mostrou o quanto eu era incongruente, o quanto eu deixava de viver minha vida. Saia da zona de conforto, supere-se, tenha amor próprio.

Com o tempo eu percebi que foi a escolha mais sensata, percebi que existe beleza na tristeza. Ela nos ajuda a perceber o quão enorme o nosso amor pode ser. Tanto é que pode nos machucar tão intensamente que dizer adeus ao meu irmão, na forma como o conhecia, era simplesmente devastador.

Eventualmente, eu me abri e comecei a falar muito honestamente sobre tudo isso. Comecei a perceber que, se eu acreditasse que tudo acontece por uma razão, a morte também fazia parte disso. Enquanto era doloroso perder meu irmão em sua forma física, inúmeros milagres começaram a acontecer desde o seu falecimento.

Agora entendo que era simplesmente o tempo que seu espírito precisava para seguir em frente a partir do corpo em que estava. Seu espírito ainda está muito vivo, até hoje, e eu sinto evidências disso regularmente. A chave para mim é ficar aberta para vê-lo.

Esta sabedoria interior me trouxe paz e compreensão diferentes de tudo o que eu jamais havia experimentado na vida.

Então por que estou compartilhando isso?

Para que você saiba que você não está sozinho. O luto é uma viagem diferente e única para todos. Todos nós lidamos com isso da melhor forma que conseguimos. E é um momento fundamental no processo de cura.

Não estou afirmando de forma alguma que eu seja uma especialista em dor, eu simplesmente quero compartilhar algumas coisas que me ajudaram durante esse tempo difícil, com a esperança de que sejam úteis para você também continuar.

1. A aprendizagem do Perdão: para a situação, a pessoa, as coisas que você não teve tempo de dizer, os momentos que você gostaria de ter tido ou para aqueles que você gostaria de voltar atrás. Perdoe. Viver com magoas nos adoece. Posso dizer que meu irmão uniu a família com sua morte e une espiritualmente até hoje, ele é o nosso ícone de harmonia e paz, nossa luz. Eu sei e sinto que ele está sempre ao meu lado.

2. O foco no amor: Quando eu fiquei pronta, preferi concentrar-me no amor partilhado por nós dois em vez de ficar fixada na dor. E é nesse foco que eu peço que meus pais e meus irmãos que também sentem muito sua partida, se concentrem.

3. O entendimento de uma razão maior: Percebendo e confiando que as coisas são transitórias e, ao mesmo tempo, confiando que tudo aconteceu por uma razão. No inicio foi difícil pensar assim, apesar de manter contato diário com ele por via de mensagens, telefone, me culpava por não ter sido presente.
Nossa última conversa foi meu irmão me parabenizando pela minha formatura e eu prometendo fazer minha pós graduação em Brasilia. Promessa nunca cumprida, não deu tempo, ele se foi… O que ele me ensinou com sua partida? Que quem faz o tempo somos nós. Arrume tempo para as pessoas que você ama.

4. A honestidade com os sentimentos e o tempo necessário: Ser aberta e honesta sobre como me sentia em vez de tentar esconder meus sentimentos. Expressar as minhas necessidades a quem eu amo, e deixar que essas pessoas soubessem que, às vezes, eu apenas preciso de um tempo sozinha.

5. Pedir e aceitar ajuda: estar aberta para mostrar minha vulnerabilidade pedindo a ajuda de pessoas em quem confio e me permitindo recebê-la.

6. Respeitar o próprio tempo: dando tempo e espaço para poder sentir e me curar.

7. Expressar gratidão pelos dons que recebi, por ter meu irmão como uma parte da minha vida por tanto tempo como eu tive, mesmo que boa parte desse tempo tenha sido á distância, ele em Brasília e eu aqui em Manaus, mas a infância e a adolescência juntos são memórias impagáveis, e mesmo de longe estávamos sempre conectados. É ótimo poder celebrar nossas memórias. Embora reconhecendo que o seu espírito está sempre comigo, enquanto eu permanecer aberta.

8. Tudo isso aconteceu até que um dia, finalmente, percebi que voltei a me concentrar no que eu amo e passei a fazer mais e mais a cada dia.

O que eu quero com essa declaração é que você perceba a importância de perdoar, de fazer as pazes com a família, com o amigo, não importa o motivo que os separou, se você o ama, senta-se com ele e converse, abra seu coração. Mantenha-se presente na sua família. Lembre-se que não existe perfeição, todos nós estamos suscetíveis a erros, todas as famílias tem suas imperfeições, mas a família sempre será o nosso suporte, nosso porto seguro. Espero conseguir passar a você que está lendo esse texto uma boa lição de vida.
Crisângela Menezes
Bjus